Adestramento básico Guia explicativo
Reforço positivo: o que é e por que funciona tão bem
Entenda o reforço positivo, saiba escolher a recompensa, usar um marcador, entregar o prêmio na hora certa e reduzir os petiscos devagar sem que o filhote desaprenda.
Foto: Elf (Ellen Levy Finch) O filhote senta no tapete da cozinha enquanto você corta o frango, e você solta um pedacinho para ele. Na noite seguinte, ele já está sentado ali antes de você abrir a geladeira. Esse é o reforço positivo em ação, e ele sustenta o adestramento atual de cães: o que rende algo que o cão valoriza tende a se repetir. Sentar perto de você e ganhar petisco faz ele sentar mais; pular e ganhar atenção faz ele pular mais. Quem entende isso começa a ver cada hora do dia como uma chance de ensinar.
Aqui você encontra os termos que aparecem em livros e cursos, aprende a escolher o prêmio certo para cada momento, vê por que a hora da entrega pesa tanto, descobre como usar um marcador (uma palavra ou um clicker) e entende como deixar para trás a fase de petisco a cada acerto sem que o filhote pare de responder. O panorama do treino está no tema adestramento básico.
Os termos explicados de um jeito simples
Quando se fala de aprendizagem, "positivo" quer dizer somar alguma coisa e "negativo" quer dizer tirar. "Reforço" é tudo o que faz um comportamento aparecer mais, e "punição" é o que faz ele aparecer menos. Juntando as peças, reforço positivo é oferecer algo agradável logo depois de uma ação para que ela se repita, como entregar um petisco no momento em que o filhote encosta o traseiro no chão.
Esse tipo de treino também se apoia na extinção: parar de recompensar algo que antes dava resultado. Imagine o filhote pulando na sua perna para ganhar atenção quando você chega do trabalho. Você se vira de costas e só faz festa quando as quatro patas estiverem no piso. Como o pulo não rende mais nada, ele vai sumindo aos poucos. Se ao mesmo tempo você premiar uma alternativa, como sentar, a extinção funciona bem melhor.
Já os métodos aversivos, como dar tranco na guia, gritar, borrifar água ou usar coleira de choque, funcionam somando algo ruim ou só tirando o incômodo quando o cão obedece. Podem até dar a impressão de resultado rápido, mas trazem risco de medo, estresse e agressividade e estragam o vínculo com o tutor. Por esse motivo, ficam fora deste site.
Como acertar na escolha do prêmio
Prêmio é aquilo que o filhote quer naquele instante, não o que você imagina que ele deveria querer. Para quase todos, comida é a moeda mais forte e mais fácil de usar. Só que um brinquedo, um carinho atrás da orelha, a chance de farejar um poste, a porta se abrindo para o quintal ou a subida liberada no sofá também podem valer como recompensa, conforme o cão e o momento.
Vale imaginar uma régua de valor. Na sala, sem nada acontecendo, um grão da ração do dia pode bastar. No quintal, com passarinho no muro, talvez você precise de um petisco mais saboroso. Na calçada, com outros cães passando, só algo muito especial vai ganhar a disputa com tudo ao redor. Quanto mais difícil a situação, maior precisa ser o valor do prêmio.
Corte os petiscos bem pequenos (do tamanho de uma ervilha, ou menos para filhotes miúdos), escolha os macios e que descem rápido, para o treino não parar a cada mastigada. Tire da ração do dia o que for gasto nos treinos e lembre que petisco deve ser só uma fração pequena da alimentação. Nunca use como prêmio um alimento perigoso para cães; a lista está em alimentos perigosos para filhotes.
- Valor baixo: grãos da ração do dia, para treinar dentro de casa
- Valor médio: petiscos industrializados feitos para filhotes, partidos em pedacinhos
- Valor alto: lascas de frango cozido sem tempero ou outro alimento seguro que o veterinário indicar
- Prêmios do dia a dia: brincar, farejar, sair, ganhar carinho, receber o brinquedo de volta
A hora da entrega e o marcador
O filhote liga o prêmio àquilo que estava fazendo no exato momento em que ele apareceu. Se ele sentou, ficou de pé e só aí recebeu o petisco, pode entender que ganhou por levantar. Por isso a recompensa tem de chegar rápido, em um ou dois segundos.
Nem sempre a mão alcança a boca dele a tempo. Para isso existe o marcador: uma palavra curta e sempre igual, como "isso!" ou "boa!", ou o estalo de um clicker, falado no instante exato do acerto. Ele funciona como uma fotografia do momento certo e avisa que o prêmio está a caminho. Para dar sentido ao marcador, fale a palavra e entregue um petisco umas dez vezes seguidas, em duas ou três sessões. A partir daí, ela passa a significar algo para ele.
Uma regra que não tem exceção: falou o marcador, entregou o prêmio, mesmo se você marcou no momento errado. É assim que ele continua sendo confiável.
Três caminhos para obter o comportamento
Isca: conduzir o filhote com o petisco entre os dedos. Quando a mão vai do focinho para trás, por cima da cabeça, ele senta. É o jeito mais rápido de começar, mas a isca precisa sumir em poucas sessões, para que ele não passe a obedecer só quando vê comida.
Captura: aguardar que o filhote faça por conta própria e premiar. Se toda vez que ele se esticar tranquilo no tapete da sala você marcar e der um petisco, ele vai escolher deitar ali com mais frequência. Funciona muito bem para atitudes calmas do cotidiano.
Modelagem: premiar pequenos avanços rumo ao comportamento final. Para ele entrar na caixa de transporte, você recompensa primeiro um olhar para a caixa, depois a aproximação, depois uma pata lá dentro, e segue assim. Serve para ensinar coisas mais elaboradas. Exemplos de isca nos primeiros comandos estão em senta, deita e fica.
Reduzindo os petiscos sem perder o que foi aprendido
Nas primeiras semanas, todo acerto é premiado. Quando o filhote passa a acertar quase sempre, a recompensa fica variada: um petisco numa vez, dois na outra, só um elogio animado, um brinquedo, ou a liberação para fazer o que ele queria, como sair pela porta. Não saber o que vem mantém o comportamento firme.
Não corte os prêmios de uma vez nem antes da hora. Muita gente para de recompensar assim que o filhote parece ter entendido, e o comportamento desaparece. Pela vida inteira, compensa premiar de tempos em tempos, sobretudo nas situações difíceis. O chamado, por exemplo, merece pagamento caprichado sempre, porque protege o cão.
Deslizes frequentes
Pensar que reforço positivo significa deixar o filhote fazer o que bem entende.
Esse método tem limites: você organiza o ambiente, evita que o comportamento indesejado aconteça e ensina o que fazer no lugar.
Entregar o prêmio muito depois do acerto.
Premie em até um ou dois segundos ou use um marcador no instante exato em que ele acertar.
Usar petiscos grandes, que param o treino e pesam na alimentação.
Corte pedacinhos minúsculos e tire da ração do dia o que for gasto nas sessões.
Balançar o petisco na frente dele para "convencer" antes de dar o comando.
Passadas as primeiras sessões, deixe o petisco fora da vista e entregue só depois do acerto. Assim ele não aprende a obedecer apenas quando enxerga comida.
Checklist
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Hora de chamar o veterinário
Fale com o veterinário quando
- Para saber quanto petisco cabe na dieta do filhote, principalmente se ele estiver engordando além da conta.
- Se aparecer vômito, diarreia ou coceira depois de ele provar um petisco novo.
- Se ele não demonstrar interesse por nenhum prêmio, nem comida nem brincadeira, o que pode ser sinal de mal-estar.
- Se surgir medo forte ou agressividade em treinos simples, para investigar dor e indicar um veterinário comportamentalista.
A lista serve para orientar e não dá conta de todos os casos. Se você olhar para o filhote e sentir que algo não vai bem, acredite no que está vendo e leve-o a um profissional.
Dúvidas que sempre aparecem
O reforço positivo serve para todas as raças?
Serve. Todo cão aprende pelo mesmo mecanismo. O que varia são os prêmios favoritos e o nível de energia e concentração de cada um.
O que fazer se o meu filhote não se interessa por petisco?
Teste petiscos mais saborosos, treine antes das refeições e escolha lugares com menos distração. Para muitos cães, brinquedos e brincadeiras também são prêmios excelentes.
Posso falar "não" para ele?
Pode, se for um aviso tranquilo para interromper, nunca um grito. Só que o "não" sozinho não ensina nada; em seguida, mostre ao filhote o que ele deve fazer e premie quando ele fizer.
Texto ligado ao tema Adestramento básico. O guia desse tema reúne o que fazer em cada idade, os deslizes mais vistos e a lista inteira para marcar.
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